#AbstractaStories: Victor Scotto, um testador de software incansável
Victor Scotto tem 31 anos, mora perto de Cerrito de la Victoria, em Montevidéu, no Uruguai, e está convencido de que os testes podem ajudar a melhorar o acesso à saúde.
A história de Victor Scotto é um exemplo claro de como o trabalho pode ajudar as pessoas a ganhar autonomia e protagonismo, para melhorar a qualidade de vida de um jeito significativo.
Victor, um testador apaixonado, sofre de um distúrbio hemorrágico crônico que pode se tornar incapacitante se for tratado de forma inadequada. Infelizmente, esse foi o caso dele. Mas ele conseguiu seguir em frente e, agora, busca ajudar o máximo de pessoas possível no caminho.
O transtorno é conhecido como hemofilia, e a característica principal é que o sangue não coagula direito. Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos CDC, a hemofilia pode levar a problemas graves de longo prazo, como doença articular crônica e dor no caso de sangramento nas articulações. Além disso, convulsões e paralisia se houver hemorragias na cabeça e no cérebro, e até a morte.
Segundo o CDC, a hemofilia afeta 1 em cada 5.000 bebês do sexo masculino, em todos os grupos raciais e étnicos.
“Quando eu era bebê, ficava roxo, chorava muito de dor e me encolhia quando me pegavam, mesmo que fosse de leve. No começo, acharam que eram sintomas de abuso. Mas fizeram exames e me diagnosticaram na hora, quando eu tinha só 6 meses”, disse Victor.
“A hemofilia se caracteriza por sangramento espontâneo. Um dia você pode ir dormir normalmente e, no dia seguinte, acordar com uma articulação cheia de sangue, muita dor e inflamação, e a necessidade de ir ao médico para receber a medicação necessária para o sangue coagular direito”, explicou ele.
Até quase 3 anos atrás, toda vez que sangrava, ele precisava fazer tratamento e repousar por 3 ou 4 dias. Quando criança, viveu “numa bolha”, pelo medo da família e do entorno em geral.
“ Essa situação fez com que eu faltasse muito, e fiquei para trás. Primeiro como estudante e, depois, como adulto no trabalho. Tudo isso me levou a ser uma pessoa sem nenhuma autonomia. O sangramento afetou a minha cartilagem articular. Tive que lidar com dor e instabilidade física, porque diziam que eu era jovem demais para ter uma prótese. Chegou a um ponto em que era difícil caminhar. Senti muita frustração por não conseguir mudar a minha situação. Muitas vezes tive que abandonar os estudos ou o trabalho por problemas relacionados.”
Victor explicou que é possível receber tratamento sob demanda ou como profilaxia. “Recebi tratamento sob demanda dos 8 aos 29 anos, o que significa que eu tinha acesso à medicação quando o sangramento já tinha começado. A profilaxia consiste em receber medicação com regularidade para ter níveis altos de coagulação e prevenir o sangramento. Hoje se sugere começar a profilaxia nos primeiros anos de vida para evitar esses sangramentos, levar uma vida normal com menos limites e evitar danos físicos irreversíveis.”
Longe de desabar nesse caminho, Victor conseguiu se reerguer e seguir em frente. Começar o tratamento de profilaxia mudou radicalmente o dia a dia dele. Ele conseguiu tomar o controle da própria vida, embora ainda tenha sequelas importantes e deficiência no joelho esquerdo. Conseguiu começar a “projetar uma vida com mais aspirações”. Nesse caminho, o acesso dele ao mundo do teste de software e a reconversão profissional foram fundamentais.
Health IT, teste de software e ciência
Felizmente, o avanço da ciência é muito encorajador e, hoje, há tratamentos para hemofilia que mudaram a história para sempre. Além disso, graças ao Health IT, há inúmeras aplicações que facilitam o dia a dia de quem é afetado.
A terminologia Health IT se refere ao uso de hardware, software e infraestrutura de TI para oferecer mais e melhores ferramentas ao sistema de saúde e à saúde das pessoas.
Segundo uma publicação da Roche, “crianças diagnosticadas com hemofilia têm uma expectativa de vida normal, enquanto, um século atrás, a expectativa de vida era de meros 11 anos.”
“A minha intenção é tornar esta situação visível, e acho que ligo isso muito à minha experiência em teste de software. Encontrar essas falhas no sistema em que vivemos e contribuir com outras pessoas para resolvê-las pode ajudar a evitar que se repitam num ciclo sem fim”, destacou Victor.
O Health IT se expande todos os dias, e o teste de software se ocupa de encontrar bugs em sistemas de todas as complexidades. Como resultado, o teste pode ser literalmente vital para o sistema de saúde e para a saúde das pessoas.
Com o tempo, Victor conseguiu extrapolar todo o conhecimento dele em teste de software para a própria vida e para a situação pessoal. E, hoje, sonha em usar os testes como ferramenta para ajudar a melhorar o acesso das pessoas à saúde.
Atualmente, além de ter um trabalho remunerado como testador, ele é voluntário na Fundação Douglas Piquinela, que busca uma abordagem integral da hemofilia para melhorar o diagnóstico e o tratamento. Graças ao conhecimento dele em testes, além do trabalho como membro do conselho, ele pôde ajudar com teste exploratório no site da fundação.
A partir daí, Victor quer evitar que este transtorno se torne incapacitante na vida das pessoas, como aconteceu com ele.
– Como o teste de software ajudou você no seu caminho?
Nada do que faço hoje teria sido possível se eu não tivesse começado no caminho dos testes e feito uma reconversão profissional. Ali aprendi a ter uma perspectiva diferente sobre a minha própria vida, ganhar autonomia e aplicar à vida em geral todo o conhecimento que aprendi em testes.
– Como você os aplica?
Acredito que, como pessoa, tive a oportunidade de testar o sistema de saúde com as minhas experiências. As falhas que encontrei serviram de testemunho para que outras gerações não passem pela mesma coisa. Tornar a minha situação conhecida é uma forma de reportar isso, assim como se faz em testes para cada erro encontrado. Os tratamentos já existem, a medicina avança, é difícil acessá-los, mas é muito importante saber que existem. Para não repetir os mesmos erros em loop, e sim destacá-los para que possam ser resolvidos.
– Como o Health IT ajuda nisso?
Hoje há sistemas de TI médica e inúmeras aplicações que ajudam os pacientes a acompanhar como administrar a medicação ou acessá-la mais rápido. Ao coletar dados, dá para ver como tornar os tratamentos mais efetivos e trabalhar na prevenção. Isso contribui para melhorar a qualidade de vida das pessoas.
Uma longa jornada
Antes de se tornar testador, trabalhou como assistente administrativo e técnico de conserto de PC. Em busca de um futuro melhor, fez um curso de testes oferecido pela Abstracta no Enlace Cowork.
Inscreveu-se pelo Instituto Nacional de Emprego e Formação Profissional do Uruguai, em conjunto com a empresa hoje chamada NexosUy, que contém um portal online de ofertas de emprego para pessoas com deficiência.
No curso, ele aprendeu sobre teste manual, teste exploratório, o ciclo de vida de produtos de software, a criação e a execução de casos de teste e a elaboração de relatórios de incidentes. Além disso, a importância de ser detalhista e de trabalhar de forma colaborativa em equipe para alcançar software de qualidade.
Ele entendeu como o trabalho dele pode ganhar relevância no ciclo do produto de software, como parte de uma engrenagem muito maior.
“Foi uma mistura de muitos fatores que me trouxe até aqui. Os meus objetivos eram poder trabalhar no mundo da tecnologia que, como todos sabemos, sempre foi muito promissor. Mas, acima de tudo, crescer, ter autonomia e sentir que posso contribuir com questões relevantes na vida das pessoas.”
Depois de concluir o curso, teve a chance de fazer um estágio de 7 meses na Abstracta, e ali começou um caminho profissional que seria muito significativo para a vida dele.
Depois do estágio, trabalhou como testador na NexosUy. Então, com mais autoconfiança, Victor continuou estudando. Primeiro publicidade e, recentemente, começou Comunicação, para ter cada vez mais ferramentas. Atualmente trabalha como estagiário de testador de software no Fundo Nacional de Recursos do Uruguai e é voluntário na Fundação Douglas Piquinela.
– Como o estágio na Abstracta mudou o seu caminho?
Me vi num mundo que eu não conhecia, feito de muitos projetos para muitas pessoas de países diferentes, com expectativas e necessidades diferentes. Foi uma experiência muito enriquecedora. Senti acolhimento, empatia e superação, além de compromisso para alcançar um objetivo comum. Isso me motivou muito.
– Como foi a sua jornada depois que você entrou?
Nas primeiras semanas de treinamento, aprendi muitas coisas antes de começar a participar de qualquer projeto. Eu estava só começando em testes. O primeiro projeto em que tive a oportunidade de participar estava ligado à “The RealReal”, um marketplace online de artigos de luxo. Foi a minha primeira aproximação do inglês como testador. Depois veio a Iruka, um app que acompanha famílias, em especial as que precisam de apoio de vários profissionais no desenvolvimento dos filhos. Gostei disso porque senti que podia contribuir com projetos que ajudam pessoas de um ponto de vista mais humano.
– Como a reconversão profissional impactou a sua vida?
De muitas formas, mas o fato de ter sido pela Abstracta fez toda a diferença. Abriu muitas portas para mim. Quando as pessoas sabem que você trabalhou na Abstracta, associam isso a você ter tido uma boa formação e a buscar qualidade, já que é assim que se trabalha lá. Para mim foi muito importante, porque vi que podia trabalhar em algo diferente, relevante e de qualidade. Tudo isso rompe os seus próprios limites e mostra outro mundo. Consegui vislumbrar horizontes novos.
– O que você quer dizer?
Entendi que há pessoas interessadas em incluir quem, por razões diversas na vida, às vezes vê o caminho ficar íngreme, como eu. Entendi que o mundo de TI e os testes podem ser uma parte crucial desse caminho, e quero fazer parte dele.
– Quais são os seus projetos futuros?
Planejo continuar como voluntário na Fundação Douglas Piquinela. A ideia é conscientizar sobre a importância de melhorar o tratamento. Também planejo continuar aprofundando em testes. Quero adquirir conhecimento em BD, automação, polir as minhas habilidades como testador manual, estudar inglês e seguir avançando todos os dias. Pretendo fazer parte de projetos que tenham a ver com saúde, bem-estar e inovação, que deem soluções possíveis a problemas profundos das nossas vidas. Gostaria de ter a oportunidade de fazer testes em sites ou aplicações que ajudem na vida de pessoas com hemofilia e outras patologias, e também na saúde em geral. O mundo está em movimento constante e, se estivermos preparados para essas mudanças, tudo acontece. Tento estar em movimento constante, consciente das conquistas e com vontade de mais.
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